Bologna e Mihajlovic: uma despedida triste, mas necessária

O casamento de três anos e meio entre o técnico Sinisa Mihajlovic e o Bologna acabou bruscamente depois de cinco rodadas da edição de 2022/23 da Serie A. Na 16ª colocação, o rossoblù ainda não venceu no campeonato e os resultados abaixo do esperado aceleraram a queda do experiente comandante sérvio.

A relação entre treinadores e clubes de futebol é ligada por uma linha muito tênue, pois qualquer ruído pode rompê-la, como vimos acontecer na temporada passada com Leonardo Semplici e Eusebio Di Francesco. No entanto, a união entre Mihajlovic e Bologna era completamente diferente, tanto que era a segunda aventura de um técnico mais longeva entre os 20 times da principal divisão do calcio, perdendo apenas para Gian Piero Gasperini, da Atalanta.

Mihajlovic voltou para a capital da região da Emilia-Romagna em janeiro de 2019, quando precisou substituir Filippo Inzaghi. O sérvio mudou a cara do Bologna e evitou, até mesmo de forma avassaladora e inesperada, um rebaixamento quase certo do rossoblù ao guiá-lo até o 10º lugar. Esse acontecimento fez os bolonheses desenvolverem um afeto especial, mas alguns meses depois, o anúncio da luta de Sinisa contra a leucemia o transformou ainda mais em um herói e em uma das figuras mais importantes da história moderna do clube.

Entre idas e vindas do hospital, além de todo o esforço para conseguir acompanhar as partidas e treinamentos de maneira remota, Mihajlovic evitou tranquilamente por três temporadas consecutivas a luta contra a zona do rebaixamento, mas não conseguiu guiar o Bologna até uma competição europeia ou até mesmo a ficar novamente entre os 10 primeiros colocados da Serie A.

Na atual temporada, apesar da convincente vitória diante do Cosenza na Copa da Itália, a queda de rendimento assustou e enfureceu a alta cúpula da agremiação, que perdeu a paciência com Mihajlovic e acabou o demitindo. A notícia foi extremamente triste e causou comoção na cidade, mas a realidade é que o plantel rossoblù não mostrou uma identidade nos gramados e, entre exibições contestáveis, sofreu nos cinco jogos da liga italiana.

O atacante Marko Arnautovic foi o responsável por todos os cinco gols marcados pelo Bologna no campeonato, mas sem o talento do austríaco, a situação poderia estar bem pior. Até o momento, o clube empatou com Hellas Verona, Salernitana e Spezia, além de ter perdido para Lazio e Milan. É possível dizer que os emilianos foram razoáveis nos dois primeiros compromissos, mas se prejudicaram por ter um jogador expulso em ambos os confrontos. Já nos três mais recentes, a equipe demonstrou pouca agressividade, muita acomodação e falta de confiança.

Os ruins rendimentos do Bologna, que não começaram especificamente nesta temporada, pioraram depois das súbitas saídas de Arthur Theate, Aaron Hickey e Mathias Svanberg, três jogadores que eram importantes para a equipe. Outras peças do plantel, como Riccardo Orsolini, Musa Barrow, Roberto Soriano e Jerdy Schouten, também estão em um processo de involução em 2022/23. Boa parte dos recém-chegados são jovens e muitos vieram do exterior, como Nikola Moro, Joshua Zirkzee e Jhon Lucumí, tornando necessário que passem por um período de adaptação.

Para se ter uma ideia sobre os rendimentos dos felsinei, as melhores exibições do Bologna nas últimas duas temporadas foram em partidas que Mihajlovic estava hospitalizado para dar continuidade ao tratamento contra a leucemia, no meio daquela união dos jogadores para dar tudo em campo em homenagem ao sérvio. A infeliz doença, que veio justamente quando o clube parecia prestes a decolar no futebol italiano, impediu até mesmo um relacionamento mais duradouro entre as partes.

Apesar de o Bologna ter sido tratado pela imprensa italiana como a ovelha negra da história, a permanência de Mihajlovic era defendida por poucos e, desde a temporada passada, já mostrava sinais de que a continuação do trabalho havia entrado em um período de fechamento. Sinisa, que pediu para que fosse julgado pelo clube como um treinador e não como uma pessoa doente, teve seu pedido atendido e a permanência no cargo era inviável pelo que estava sendo demonstrado em campo.

O Bologna fez todo o possível nos últimos anos para não ser desrespeitoso ou até mesmo rude em relação a um treinador envolvido em uma batalha extremamente difícil, que vai bem além das quatro linhas do campo. Em 2019, o clube permaneceu ao lado de Mihajlovic mesmo sabendo que ele iria ficar ausente por um longo período e deu total confiança aos seus auxiliares, que realizaram um ótimo trabalho em Bolonha.

As apresentações do Bologna na atual temporada são muito negativas, mas absolutamente nada apagará o carinho da torcida por Mihajlovic, que até virou cidadão honorário da cidade italiana no ano passado. O sérvio permanecerá dentro do coração de grande parte dos fãs, pois o treinador se tornou um símbolo de garra, luta e perseverança, características que representam muito bem o que é ser bolonhês.

O desafio de alterar a postura da equipe do Bologna e retomar a boa fase do rossoblù deverá caber ao ítalo-brasileiro Thiago Motta, que provavelmente vencerá a disputa contra o experiente Claudio Ranieri. A chegada de um novo treinador poderá jogar para longe o clima de acomodação que está há anos em Casteldebole e a sensação de renovação deverá cair bem ao heptacampeão da Itália.

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